estou no ônibus. banco alto. embaixo de mim, uma mulher lê um livro nesses trem que coloca o dedinho e passa a página. tantas coisas. percebo que é um romance romanção. começo a acompanhar a leitura, mas ela olha pela janela e passa a página. nem leu. nem eu. não deu tempo. ela olha pela janela e passa a página de novo. não deu tempo. pego as primeiras frases e crio o meu desfecho. a mulher não queria casar. pronto. estou voltando pra casa plena, mas nem tanto, depois de um almoço. já quase pra descer, vejo um cachorro arreganhado numa varanda - que delícia estar assim às quatro da tarde -, vejo uma ducha aberta com alguém sendo feliz e um moço aguando as planta. ai, a água. ai, o calor. e a única coisa que sinto é o suor escorrendo do meu sovaco. desejo atenta a noite. janela aberta. vento nos peito. que seja agradável.
hoje tomei café da manhã na casa da minha namorada lendo "minhas queridas", livro de cartas escritas pela clarice lispector para as irmãs elisa e tânia, entre os anos de 1940 e 1957. entrar na intimidade dela é fabuloso e completamente identificável. tem um pouco de mesmice. de tempo parado. de amor. de insistência por respostas. de solidão. de sensibilidade. de humor. "essa gente toda de quem estou falando apresenta o ligeiro milagre de não ser chata, pelo contrário". risos. em novembro de 1944, ela escreveu: "você não imagina como longe do Brasil se tem saudade dele. sou capaz de escrever um novo Brasil, país do futuro..." gostaria. logo cedo estava tocadíssima por aquelas palavras. o dia, às vezes, desanda, mas quero acreditar na vida pelas manhãs. pensando nisso, trouxe o livro pra minha casa. amanhã continua. saga.

Casa

I

o desconhecido me acomodava
hoje a intimidade me apavora
me distraio e a madrugada fica enorme
seus olhos anoitecidos
não imaginam que conto
passos pela casa
do quarto, catorze até a cozinha
mais cinco até a janela
no frio,
a bolsa de água quente me abre
feridas nas pernas

II

bebemos em silêncio
o último vinho
comprado no verão passado
percebemos o amor escapando
a falta de coragem das palavras
essa noite, me peguei
dormindo igual a você

III

sempre tive medo de errar
a medida do café.


IV

perdi o isqueiro pela casa
sinto um desconforto ao andar pelos cômodos
nada mais me acolhe nesse lugar
nem mesmo as palavras
ou as velhas fotografias que tiramos
no alto da serra
abraçadas

a madrugada me desperta para os detalhes da casa
o tapete sob efeito de ondas
o barulho da tábua corrida
recebendo os pés cansados
na estante, a primeira letra do seu nome
dou ao amor o destino de uma taça
prestes a cair da beirada do poema
a vida submarina, primeiro livro da ana martins marques, tem me acompanhado essa semana. ontem, vivendo a madrugada, tudo era terror e espanto. a insônia me acompanha há meses, os versos se apresentam com certo ineditismo nessas horas. mas as pálpebras estão exaustas. o poema é um lugar desconhecido. o corpo estranha a chegada. a turbulência. esse encontro que me toca por baixo da pele. habitar as palavras é pra quem tem coragem.

toda manhã, uma tosse insistente. forte. às vezes, acho que até meu coração vai, quer sair pela boca. é que eu sempre digo: pode vir tudo, pode vir tudo que aqui cabe. um apreço incomensurável de comer o inédito. a comida, a palavra, a buceta.

pós-terapia

a energia é universal. o que muda são as vibrações. positivas & negativas. me disseram que é puro erro achar que se proteger quer dizer se blindar. tem mais a ver com se preparar. o corpo conversa o tempo todo. então, melhor bater aquele papo bom e deixar que a energia circule entre os outros. permissão. doação. saí da terapia atravessada por esses pensamentos. estou num lugar completamente novo. quero voltar daqui um tempo e ler esse deslocamento. finalmente, deixei o amor chegar. é a primeira vez que escrevo isso. que leio que escrevi isso. escrever, pra mim, é muito mais difícil do que falar. digo no sentido de que é minha comunicação mais forte. mais intensa. mais profunda. se escrevo, pá: é coisa que vem de dentro. mesmo. outro dia, chorei depois de transar. um choro confiante. lúcido. de certeza. de beleza da vida. da janela aberta. do corpo entregue. envolvido. investido. tenho escrito pouco. aliás, demorado mais para escrever. numa piração total, que talvez faça sentido ou não, não importa agora, seja porque tenho demorado mais nos sentimentos. enfim, estou aprendendo a perceber o tempo. a contemplar o ócio. a trocar a culpa pela responsabilidade. a não contar os orgasmos. a sentir mais com a pele, como eu sempre desejei a mim e aos outros. hoje, conheci uma poeta de Belém do Pará que tocou por baixo de tudo. Olga Savary. mandei para Fernanda. meu agora, meu tempo, meu começo.

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.

Olga Savary