meu aniversário
entro no elevador e um moço diz que estou com a energia boa.
agradeço.
não a ele, mas às deusas.
ele diz:
não é por nada.
sorrio por enganar.


pós-aniversário

outro dia, eu tive um sonho bonito com minha analista. eu andava por uma rua em que as casas ainda estavam sendo construídas, entrava em uma delas e de lá, mandava mensagem para marcar um horário. em seguida, com horário já marcado, eu saía dessa casa para ir ao consultório e começava a andar de novo nessa mesma rua. algo atrás de mim me chamou atenção e quando olhei, minha analista estava saindo da casa em que eu estava. olhei  pra ela como se perguntasse: te espero ou vou sozinha? e ela apontou com a cabeça como se dissesse: vai sozinha: quem constrói isso é você.  hoje, passando em frente ao consultório dela, tive vontade de descer e dizer: eu não consigo. mas olhei pra trás mais uma vez, encarei o ontem e vi o curso da vida. tanto afeto. fui longe e voltei meio trôpega delirante pra esse universo sem ordem. deu tudo certo. fiz 31 e juro - quase como uma oração: envelhecer é gostoso. 

Análise

I
perguntei pra minha analista
como a gente percebe o fim.

II
no divã,
pensando se ainda te amo.

terça

um cavalo me aparece em sonho. luz enorme, eu convoco. bravo, distante e intocável. sou eu, não você, meu amor. não se coloque aonde não te cabe, penso debochada. ela me cospe palavras reais. a poeta me arde os olhos. demoro a acreditar na vida, mas não em mim. ela duvida. quer me matar esse acúmulo no peito. digo que te amo, mas é mentira. mentira. não frequento mais nossas conversas porque elas não contêm a beleza de antes. falo sem ser ouvida. quando foi que comecei a reivindicar minha presença por meio da fala, meu deus? a partir de hoje, leio orides fontela e penso em você. o silêncio, a boca enorme.
estou no ônibus. banco alto. embaixo de mim, uma mulher lê um livro nesses trem que coloca o dedinho e passa a página. tantas coisas. percebo que é um romance romanção. começo a acompanhar a leitura, mas ela olha pela janela e passa a página. nem leu. nem eu. não deu tempo. ela olha pela janela e passa a página de novo. não deu tempo. pego as primeiras frases e crio o meu desfecho. a mulher não queria casar. pronto. estou voltando pra casa plena, mas nem tanto, depois de um almoço. já quase pra descer, vejo um cachorro arreganhado numa varanda - que delícia estar assim às quatro da tarde -, vejo uma ducha aberta com alguém sendo feliz e um moço aguando as planta. ai, a água. ai, o calor. e a única coisa que sinto é o suor escorrendo do meu sovaco. desejo atenta a noite. janela aberta. vento nos peito. que seja agradável.
hoje tomei café da manhã na casa da minha namorada lendo "minhas queridas", livro de cartas escritas pela clarice lispector para as irmãs elisa e tânia, entre os anos de 1940 e 1957. entrar na intimidade dela é fabuloso e completamente identificável. tem um pouco de mesmice. de tempo parado. de amor. de insistência por respostas. de solidão. de sensibilidade. de humor. "essa gente toda de quem estou falando apresenta o ligeiro milagre de não ser chata, pelo contrário". risos. em novembro de 1944, ela escreveu: "você não imagina como longe do Brasil se tem saudade dele. sou capaz de escrever um novo Brasil, país do futuro..." gostaria. logo cedo estava tocadíssima por aquelas palavras. o dia, às vezes, desanda, mas quero acreditar na vida pelas manhãs. pensando nisso, trouxe o livro pra minha casa. amanhã continua. saga.

Casa

I

o desconhecido me acomodava
hoje a intimidade me apavora
me distraio e a madrugada fica enorme
seus olhos anoitecidos
não imaginam que conto
passos pela casa
do quarto, catorze até a cozinha
mais cinco até a janela
no frio,
a bolsa de água quente me abre
feridas nas pernas

II

bebemos em silêncio
o último vinho
comprado no verão passado
percebemos o amor escapando
a falta de coragem das palavras
essa noite, me peguei
dormindo igual a você

III

sempre tive medo de errar
a medida do café.


IV

perdi o isqueiro pela casa
sinto um desconforto ao andar pelos cômodos
nada mais me acolhe nesse lugar
nem mesmo as palavras
ou as velhas fotografias que tiramos
no alto da serra
abraçadas