toda manhã, uma tosse insistente. forte. às vezes, acho que até meu coração vai, quer sair pela boca. é que eu sempre digo: pode vir tudo, pode vir tudo que aqui cabe. um apreço incomensurável de comer o inédito. a comida, a palavra, a buceta.

pós-terapia

a energia é universal. o que muda são as vibrações. positivas & negativas. me disseram que é puro erro achar que se proteger quer dizer se blindar. tem mais a ver com se preparar. o corpo conversa o tempo todo. então, melhor bater aquele papo bom e deixar que a energia circule entre os outros. permissão. doação. saí da terapia atravessada por esses pensamentos. estou num lugar completamente novo. quero voltar daqui um tempo e ler esse deslocamento. finalmente, deixei o amor chegar. é a primeira vez que escrevo isso. que leio que escrevi isso. escrever, pra mim, é muito mais difícil do que falar. digo no sentido de que é minha comunicação mais forte. mais intensa. mais profunda. se escrevo, pá: é coisa que vem de dentro. mesmo. outro dia, chorei depois de transar. um choro confiante. lúcido. de certeza. de beleza da vida. da janela aberta. do corpo entregue. envolvido. investido. tenho escrito pouco. aliás, demorado mais para escrever. numa piração total, que talvez faça sentido ou não, não importa agora, seja porque tenho demorado mais nos sentimentos. enfim, estou aprendendo a perceber o tempo. a contemplar o ócio. a trocar a culpa pela responsabilidade. a não contar os orgasmos. a sentir mais com a pele, como eu sempre desejei a mim e aos outros. hoje, conheci uma poeta de Belém do Pará que tocou por baixo de tudo. Olga Savary. mandei para Fernanda. meu agora, meu tempo, meu começo.

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.

Olga Savary
girei o timer do fogão sem querer. que desespero. um aviso de que não tenho muito tempo. o tempo tá curto. capaz de eu nem dar conta. capaz de eu abandonar tudo pela metade. hoje eu preciso ir à feira. comer mamão deve ser bom nessas horas. hoje eu preciso ir no terreiro. deve ser lindo morrer no terreiro. hoje eu preciso dar uns passos. preciso arrumar a casa. terminar o livro prometido. estamos vivendo o tempo do pensamento acelerado. uma amiga querida cuida de mim nesse momento. ela me contou que voa em sonho. escala paredes sem proteção. pula de abismos. tudo em sonho. fiquei na paranoia & com inveja. queria sonhar que mergulhava. que baleias não me dão medo. que eu cruzava com uma e fazia carinho. que entrava no mar e ia nadando cada vez mais fundo ao lado de peixes maravilhosos. acabei sonhando que mandava mensagem agradecendo o cuidado. fiquei na dúvida se era sonho ou não. acordei e vi que foi sonho. mas tratei logo de realizá-lo. é sempre um choque quando o afeto chega. estou num processo bonito e cuidadoso de autoconhecimento, o que me deixa em grande comoção quase o tempo inteiro. e tem o céu e o mar que provocam sérios abalos no meu sistema nervoso. ando atenciosa à temperatura das pessoas também. gosto de gente quente, que quase queima com o olhar ou com o toque. gosto muito da sacudida que dá um calor entre as pernas. mas ando maluca por um calor entre os braços.
é o susto que interrompe o choro. quinze e quarenta e sete: a chuva começa. faço todo o ritual de proteção, mas esqueci para quem se reza nessas horas. recolho as roupas do varal. tiro também os eletrônicos da tomada. eu deveria me concentrar em cuidar da casa. eu deveria me concentrar mais. eu deveria. acompanho atenta o desmoronamento do tempo. bonito o que cai do céu. de graça. passo os olhos na vida. tive um sonho bonito outro dia. raríssimo eu me lembrar, porém o sonho se repetiu essa semana: eu dançava em volta de uma lagoa com muitas mulheres. arrepios. essa noite sonhei que alguém declamava um poema pra mim. ontem foi um dia bonito. falou-se muito em pássaros.  

ontem à noitão vi estrelas além do tempo, que recomendo fortemente (habemus torrent). filme terminado, fiz mais algumas coisas pela casa e tomei aquele chá mara de baunilha, mel e não sei o quê, que a Monica me mandou. que amor. estava calma, mas nem tanto. pronta para dormir. mentira. queria, mas não conseguia. mais umas horinhas e foi. comecei a sonhar que estava indo para um planeta sapatônico. coisas do filme, mais ou menos. eu tava feliz até a parte em que abelhas que picavam somente orelhas invadiram onde eu tava. corre-corre danado. conclusão: não consegui ir embora. lágrimas. dormi pouco, pouquíssimo, essa noite. acordei com um amarelo desconhecido invadindo o quarto. aos poucos, ele ia se tornando intimo, porque tocava a pele. capaz do dia ser bom.

vinte e sete de novembro

dez é o número de vezes que a gaivota bateu as asas para alcançar o voo sublime. contei, questão de segundos. nesse tempo você pode estar acendendo seu camel na sala ou tamborilando os dedos na mesa da cozinha, enquanto espera ferver a água para o café. questão de detalhes. estou no meio de uma travessia entre o Rio e Paquetá e de repente tudo se interrompeu. tempo, essa barreira silenciosa. o rastro do seu vestido vermelho subindo pelas paredes.

vida moderna

mesmo com tantos buracos ainda me sinto presa às redes. vai só um braço ou vai só uma perna, nunca o corpo inteiro. nem rosto, só a boca que abre seguido do grito. tormento. mas, finalmente, estou aprendendo a usar o diafragma, o que é um alívio. expandir as laterais do corpo, criar espaços para o ar, para o que está por vir. suavidade: desejo. um dia me salvo